
Cada um acredita no que quer. Os postes de electricidade como sempre mais rápidos que o comboio, atrasado. Ela entra na carruagem, ajeita o cabelo, luminosas densas ondas na tarde, olha os passageiros a janela o crepúsculo lá fora.
Ela entra na carruagem e o comboio estremece um pouco. O rapaz de cotoveleiras em pele quer saber quem é esta? o velho de fino porte no banco da frente também, bom tabaco de cachimbo no colo, bengala encastoada entre os joelhos magros.
E espevitam-se todos um pouco, enquanto ela se acomoda numa leveza de quem espera agulhas no banco. Traz consigo pequenos fragmentos de luz alaranjada da tarde que termina que lhe sobem pelas pernas que lhe sobem pelos braços, mãos agora encostadas aos lábios perto da janela, fragmentos que se evadem para o escuro lá fora.
Não notou? Cada um acredita no que quer.
Esta mulher, esta miúda é uma cobra. Vento frio a perturbar o rumo deste comboio. O cabelo lambido do velho remexe-se um pouco na ventania. O rapaz, preso aos olhos dela, tenta ouvir o que pensa, tenta adivinhá-la. E a serpente desliza, dengosa, levanta-se para fechar a janela. E assim o cabelo do velho acalma-se, o rapaz distrai-se com o jornal e ela volta ao lugar. Tranquila, a matutar, amacia agora os dedos entre as páginas do livro de História, revê os planos feitos para os próximos 40 minutos.
O revisor passa por ali à procura de conversa.
parte 1 (continua)
anita
Ao autor da foto, as minhas desculpas, mas não me lembro do seu nome... sorry, pardonnez moi, Verzeihung...

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