segunda-feira, 26 de maio de 2008

Não encontrava nada para lhe dizer

e ele era tímido.

sexta-feira, 23 de maio de 2008

Oráculo

Que sabemos nós, sentados à beira destes 2000 e passados 300 sobre muitos outros 300 anos, de Oráculos?

quarta-feira, 21 de maio de 2008

Dispo-me

Desço a colina, logo depois do cume, as calças já são vestido leve transparente verão
os sapatos são pés nus dançantes contornando pássaros que brotam do chão
voam ao encontro do esplendor azul
levam-me com eles
anita

Véu

É possível espreitar a plenitude?

terça-feira, 13 de maio de 2008

Funiculì, funiculà




Duas mulheres descem a rua apressadas, uma tem as meias de rede rotas numa rodela vistosa atrás na perna, a outra segura a malinha debaixo do braço, dedos esticados de verniz fresco. Os saltos crepitam na pedra da avenida, pelas montras em rapidez ondulada. Uma pára, ajeita o cabelo. A outra nota-lhe o buraco na meia. Não faz mal. Ele gosta assim. A outra revira os ombros, serpenteia os olhos. Não tem ninguém à espera. Nem meias leva. Decide não lhe falar no baton a mais nos cantos dos lábios. E a outra ajeita o vestido, sente o suor escorrer-lhe pelo meio do peito de março posto e encarna-se ainda mais diva italiana, a saia justa a ritmar-lhe os flancos. Atrás delas correm dois cães lustrosos de línguas húmidas. O mais novo fareja o buraco da meia, o outro mal consegue ver. E elas apressam-se ainda mais, mais rápido ainda e contornam exímias a esquina. O adro já está deserto. O cão mais novo ganha a corrida e em flecha rasga um bocado da meia de buraco na perna. Ela assusta-se e grita. A outra enxota-o e suspira. Até os cães! E estacam no degrau, limpam o suor do buço e empurram a porta. Vais entrar nessa figura? sussurra-lhe a outra. Ele gosta assim. E ajoelha-se.

anita

segunda-feira, 12 de maio de 2008

Canção de embalar para este sono

Orgia sonora a igualar o espírito.
É preciso ritmar o desassossego

sábado, 10 de maio de 2008

Instinto

Wild thing, The Troggs

quarta-feira, 7 de maio de 2008

Viver tripolar

sábado, 3 de maio de 2008

Riscar o que não interessa

Desamor

Sou baixa, baixo, feio, feia, pobre, não tenho jeito, não consigo, não posso, quero ser invisível, ninguém me deixa, não chego lá, não aguento, não me fica bem, sou horrível, sou fraco, fraca, não tenho carro, tenho o nariz comprido, não gosto do governo, tenho o nariz curto, quero outro carro, tenho os olhos pequenos, grandes, tenho a boca grande, pequena, sou gordo, gorda, magro, tenho o rabo grande, odeio as minhas pernas, não tenho rabo, não tenho músculos, não sou bom na cama, sou magra, estou velho, velha, sou tímida, tímido, sou inseguro, insegura, odeio o meu emprego, estou farto da minha mulher, não tenho amigos, os meus amigos não me largam, quero umas mamas maiores, mais pequenas, quero ir morar para um país civilizado, quero mais cabelo, quero deixar crescer a barba, estou farta do meu namorado, quero ter olhos verdes, odeio a minha vizinha, quero falar alemão, não suporto a cidade, o campo, as filas de trânsito, não gosto de televisão, quero tocar bateria, não gosto de carne, não quero ter filhos, não sei escolher vinhos, quero ter filhos, acho que me estão a passar a perna, não consigo ser melhor, não consigo, não quero, não gosto, não sei. Quero. Não sabes quem és.

E, no entanto, és alguma coisa.



Massive Attack, What your soul sings

'Don't be afraid
Open your mouth and say
Say what your soul sings to you
Your mind can never change
Unless you ask it to
Lovingly re-arrange
The thoughts that make you blue
The things that bring you down
Only do harm to you
So make your choice joy
The joy belongs to you
And when you do
You'll find the one you love is you
You'll find you love you'

Jan

Jan Garbarek, Rites

Conseguir suspender a respiração do minuto 05:51 ao 07:20

Anja

Anja Garbarek, Can I keep him?

quinta-feira, 1 de maio de 2008

Terra Sonâmbula

Do carácter altivo pseudo-intelectual deprimente de cortar-os-pulsos-à-segunda cena que (quase) domina por completo o cinema português surgem surpresas. Surpresas, ora bem, bem inesperadas. Este Terra Sonâmbula, feito quase a partir do nada para além da obra de Mia Couto e dos esforço e talento da realizadora, é um respirar profundo e uma afago doce coração dentro.
É possível fazer um filme em Portugal para os espectadores comuns mortais desiluminados que rejeitam o cinema soporífero.
É possível fazer um filme em Portugal que as pessoas de carne e osso tenham realmente vontade e prazer de ver.

De Teresa Prata, a partir do livro de Mia Couto.