sexta-feira, 28 de março de 2008

Amores eternos de ouvido...

Don't let the dress trick you

''The Dress'', Blonde Redhead...



quinta-feira, 27 de março de 2008

Faraway, so close

Stay, Faraway, So Close!

Stay with the demons you drown
Stay with the spirit I found
Stay and the night would be enough


u2, 1993

domingo, 23 de março de 2008

Cyd Charisse!

Elegant, a mile long legs, saucy, funny and spirited...
Quem não gostaria de dançar como a Cyd?
Caleidoscópio para outros tempos...


sábado, 22 de março de 2008

Gourmet

E ele debitou o prato do dia: doce ironia com piano e melancolia


Ode to Divorce, Regina Spektor (play, repeat, play...)

anita

Come wander with me

Música: Jeff Alexander; cantada pela actriz Bonnie Beecher

quarta-feira, 19 de março de 2008

O que queres então?



Cada um acredita no que quer. Os postes de electricidade como sempre mais rápidos que o comboio, atrasado. Ela entra na carruagem, ajeita o cabelo, luminosas densas ondas na tarde, olha os passageiros a janela o crepúsculo lá fora.
Ela entra na carruagem e o comboio estremece um pouco. O rapaz de cotoveleiras em pele quer saber quem é esta? o velho de fino porte no banco da frente também, bom tabaco de cachimbo no colo, bengala encastoada entre os joelhos magros.

E espevitam-se todos um pouco, enquanto ela se acomoda numa leveza de quem espera agulhas no banco. Traz consigo pequenos fragmentos de luz alaranjada da tarde que termina que lhe sobem pelas pernas que lhe sobem pelos braços, mãos agora encostadas aos lábios perto da janela, fragmentos que se evadem para o escuro lá fora.
Não notou? Cada um acredita no que quer.

Esta mulher, esta miúda é uma cobra. Vento frio a perturbar o rumo deste comboio. O cabelo lambido do velho remexe-se um pouco na ventania. O rapaz, preso aos olhos dela, tenta ouvir o que pensa, tenta adivinhá-la. E a serpente desliza, dengosa, levanta-se para fechar a janela. E assim o cabelo do velho acalma-se, o rapaz distrai-se com o jornal e ela volta ao lugar. Tranquila, a matutar, amacia agora os dedos entre as páginas do livro de História, revê os planos feitos para os próximos 40 minutos.
O revisor passa por ali à procura de conversa.

parte 1 (continua)
anita
Ao autor da foto, as minhas desculpas, mas não me lembro do seu nome... sorry, pardonnez moi, Verzeihung...

segunda-feira, 17 de março de 2008

Destino...

Foto: Benjamin Silva (fotoben.blogspot.com)




Do I dare disturb
the Universe?
In a minute there is time
For decisions and revisions which a minute will reverse


T. S. Eliot
excerto de The Love Song of J. Alfred Prufrock (1919)

sexta-feira, 14 de março de 2008

Explosions in the sky

Vem,
Te direi em segredo
Aonde leva esta dança.

Vê como as partículas do ar
E os grãos de areia do deserto
Giram desnorteados.

Cada átomo
Feliz ou miserável,
Gira apaixonado
Em torno do sol.

Mawlānā Jalāl-ad-Dīn Rumi (Séc. XXIII, Pérsia)
Música: Explosions in the Sky, Your hand in mine


Esta manhã

Foto: Alexandre P.


Não consigo abandonar as olheiras desta madrugada.

quinta-feira, 13 de março de 2008

When we dance

Rio de Janeiro, algures nos anos 60... Foto: Frank Horvat

Put on your red shoes and dance the blues!

David Bowie

A meio da tarde, alguém me convidou para uma dança. Ou imaginei...





terça-feira, 11 de março de 2008

Voyeur

Nova Iorque, Times Square, 1945
Foto: Alfred Eisenstaedt

É talvez uma das mais famosas fotografias no mundo... Não venho mostrar a face de Deus ao mundo, sei disso. Mas há qualquer coisa de magnético nesta foto que não consigo contornar. Acho-a perfeita. Encenada ou não, só o resultado me interessa, neste caso. Abro com ela a primeira rubrica aqui do quarteirão (como se chamam estas coisas? rubricas??). Dedico-a à fotografia no geral, aos beijos magnéticos em flagrante no particular... E ao que mais vier...

segunda-feira, 10 de março de 2008

Um beijo a esta segunda-feira

O vento abriu-me os olhos, vi a folhagem do céu,
o grande sopro imóvel da primavera efémera.

António Ramos Rosa, "Escrevo-te com o fogo e a água", in Volante Verde , 1986


Segunda-feira. Ponho a chave à porta do mundo e apresso-me para os camarins feitos rua. Estou pronta a interpretar o meu papel.
Hoje, nem as gaivotas se livram de voar contra o vento.

anita

domingo, 9 de março de 2008

Ao homem que me ensinou o silêncio


Quem és tu

Quem és tu que assim vens pela noite adiante,
Pisando o luar branco dos caminhos,
Sob o rumor das folhas inspiradas?

A perfeição nasce do eco dos teus passos,
E a tua presença acorda a plenitude
A que as coisas tinham sido destinadas.

A história da noite é o gesto dos teus braços,
O ardor do vento a tua juventude,
E o teu andar é a beleza das estradas.

Sophia de Mello Breyner Andresen, in Obra Poética I, Caminho




Que mistério este.
Conhecer-te lentamente à luz branda dos anos. Que tens tu para me ensinar? Não te conhecer por inteiro e esperar sempre por conhecer-te.
Tantos anos passados sobre nós,
no entanto, não cresço, permaneço.

Que mistério este o do amor silencioso.
Que honra ter o teu sangue no meu sangue.
Que mistério este, pai.

Ao homem que me deu vida,
parabéns!

Timidez

Foto: Benjamim Silva (fotoben.blogspot.com)


Na Primavera, nem só os botões de flores precisam de ser abertos.

anita


sábado, 8 de março de 2008

"Aproveitem"!

Manhã tardia de meio dia e eles mordiam à mesa memórias passadas. Ela, com factos à mão, encostava-o subtilmente contra as cordas. Ora, a verdade sempre pede para ver a luz do dia e deixar a solitária. Ele, de mãos, ora na mesa, ora nas pernas, desviava o olhar para fixar o pensamento, arranjando palavras para se coser. O confronto de ideias estava saboroso. Entretanto, o café foi ficando cheio. Colado a eles, um homem na nobreza dos setenta meteu conversa. A conversa fechou-se e foram respondendo, seduzidos pelo descontexto e sabedoria do que ele dizia. Falou de telemóveis, dos netos e da vida. A conta aparece, aleluia. Ele, puxando da mescla de papéis do bolso, deixa mostrar um pacote de pastilhas de canela. O homem da nobreza doce dos setenta rejubila Ah o que eu estou aí a ver! Ela e ele engasgam-se um pouco. Alface nos dentes? Uma alsa de soutien reinadia? Não. Canela! Afrodisíaco! Seus malandros! Ela tenta suavizar -o café todo já assiste de pé e bilhete na mão - Ah, mas nós somos só amigos... pois.. O homem de setenta nobres e vividos anos não desiste. Aproveitem! Isto passa tudo depressa, aproveitem! Eu já tenho 80 anos, já tive a minha conta, agora vocês.. aproveitem! E perante tal encosto às cordas, ele e ela pediram a conta, sentindo-se simultaneamente estúpidos e iluminados. Ela apertou-lhe a mão macia com reverência, como se a um antepassado longínquo. Felicidades para si! De repente, a vida surgia-lhe simples, desvelada. Como lhe agradecer a oferenda?
Há conversas de café que merecem um altar.

sexta-feira, 7 de março de 2008

Da vida para a arte

De forma mais ou menos intensa todos fazemos filmes. Imaginamos, cremos, criamos. Filmes que são, afinal, apenas ficção , não?...

Que dizer dos filmes que são vida directamente transposta em arte, como este Before Sunset que adoro...

A sua simplicidade seduz-me. Sem pretensões formais, convenções rígidas do cinema, estrelas da meca, e outras elaborações artificiais, um filme com uma história que podia ser a nossa. Diálogos que já ouvimos na rua, de bocas alheias, ou no café. Não há palavras desnecessárias, enredos mirabolantes, anões, cavalos e bailarinas faustosas. Não é preciso. Para esta história de desencontro e encontro bastam duas pessoas. A sua conversa. E as ruas da cidade. E isso, para mim, é suficiente.

Todos temos argumentos para um filme da nossa vida. Mesmo sem vontade, estamos fadados para a criação.

Holly

Como este fulano, vou fazer-me um filme este fim de semana e andarilhar pela ruas (por cidades desconhecidas seria o paraíso) ao som de Holly Golightly.
A preguiça pede banda sonora.

http://www.hollygolightly.com/

Fotogramas

Desafiavam o sol com os olhos e a brisa, a querer ser vento e seda, entorpecia os gestos langorosos naquele meio de dia, acomodados na esplanada. À sua volta passeava-se, altiva, a energia adolescente de rapazes de horas longas a jogar ténis ou futebol e eles apreciavam-nos com inveja, querendo fugir das horas marcadas da tarde.
A luz estilhaçava-se nas cadeiras brancas ao ritmo das conversas inacabadas. Naquelas horas não vieram cafés que os acordassem dos filmes de si próprios na liberdade do mar vigoroso ou de campos de flores e verde.
De mansinho, as árvores foram trazendo fiapos de sombra para a mesa.
Foram partindo, pouco a pouco, primeiro no pensamento, depois, pondo as mãos aos bolsos, a incitar as pernas. Disseram-se adeus, combinando terminar a conversa numa outra tarde, outro momento, em que não tivessem de trabalhar.

anita

Tarde de evidências

Acabaram de me oferecer flores...

Abri o envelope, cheirei as estrelícias com ramos de amendoeira.. Porquê?

Ao que parece, quiseram comprovar-me que sou mulher e mereço esse galardão, não vá esquecer-me de me fazer importante simplesmente por sê-lo... Que dizer disto?

Fiquei a pensar no potencial de se criar um Dia Internacional para as Pessoas-que-não-compreendem-os-dias-internacionais...

Mas agradeci...

E as flores...
realmente, as flores são lindas

quinta-feira, 6 de março de 2008

Pensamento nesta manhã de sol e frio



conseguir,
na espessura perfeita dos teus dedos,
embalar o sol desse incêndio


anita

quarta-feira, 5 de março de 2008

Admiração

muita admiração a que sinto pela Regina Spektor...

Para esta Primavera que se insinua




"Diospiros

Há frutos que é preciso
acariciar
com os dedos com
a língua

e só depois
muito depois

se deixam morder
"


Jorge de Sousa Braga, in Balas de Polén, Quasi Edições (n me lembro da data...)

terça-feira, 4 de março de 2008

Uma salva de palmas

Foto: Benjamim Silva


"Quero saltar para a água
para cair no
céu"

Mia Couto, Chuva Pasmada

parabéns, f !

Pausa para pensamento a meio da tarde

Foto: Benjamim Silva

Nada somos do que sonhamos,
isso não se tece aqui.

E no entanto,
seguramos nas mãos
o mesmo tear.

anita

segunda-feira, 3 de março de 2008

(Re)viajar




(re)Viajar

Há sempre um lugar que desperta eterno desejo de retorno. Aperta o peito para um reencontro. Como se respirar de novo o mesmo ar fosse um renovado sopro de vida. Até lá, segue o destino de partir sem relógio, calendário, para outros lugares.

O meu corpo é o meu mapa.

O tamanho do mundo é a medida da minha vontade.

Anita

Atitude

Foto: Benjamim Silva (fotoben.blogspot.com)


Resta esse sentimento de infância subitamente desentranhado
De pequenos absurdos, essa capacidade
De rir à toa, esse ridículo desejo de ser útil
E essa coragem para comprometer-se sem necessidade.

(...)

Resta esse constante esforço para caminhar dentro do labirinto
Esse eterno levantar-se depois de cada queda
Essa busca de equilíbrio no fio da navalha
Essa terrível coragem diante do grande medo, e esse medo
Infantil de ter pequenas coragens.


O Haver (excertos), de Vinícius de Moraes


Play, repeat, play, repeat...

Dançar pelo supermercado, rua, passeios fora, subindo as escadas do prédio sincopadas pelo baixo e pelo langor da letra. Percorre-me a espinha, fazendo soltar a rigidez da semana e eu agradeço a terapia, solto a garganta. Cantá-la até provar que a sei de cor e imaginar-me o palco. Anos 50.
O pastor alemão dos vizinhos lá em baixo ladra e eu fecho as janelas. Cá dentro de mim dança-se.

Fim de semana com ouvidos viciados em Love is a losing Game, da Amy Winehouse...