domingo, 8 de fevereiro de 2009

Wonder woman


Ela sai de casa deslizando pelo corrimão - desde o quinto andar ao rés-de-chão. Abre a caixa do correio com o poder do olhar e com este fecha a porta do prédio atrás de si, estilhaçando os vidros. O Audi vem ter com ela, rosnando à beira do passeio de mansinho; à chegada ao trabalho, jornal e café descem-lhe aos dedos quentes de verniz cor de vinho. Portas abrem-se e fecham-se atrás da sua cauda. Com um estalar de dedos, marca reuniões, decisões, confusões em cabeças de secretárias, estagiários e outros proletários. Com um empinar de nariz, o almoço põe-se a jeito na mesa do bistrô do quarteirão, onde, ao comando do super olhar eléctrico se sentam logo duas ou três gravatas de isqueiro na mão.
E o dia corre, pára ou geme lento ao seu comando cardíaco dos ponteiros. Mais uma reunião, decisão, confusão. Esmagar opiniões com um bater de calcanhares e a assistente com o mindinho. O chefe, com o poder da mente, sem cabelo e carro em desalinho.
9 da noite não é cedo, regressa a casa, sobe as escadas com um espirro. As chaves saltam para a porta abrir honey i'm home rosna de mansinho aos pés do querido no sofá, o que queres que faça para jantar? subindo-lhe o jornal do dia às mãos com um afago nos tornozelos. E ele encomenda-lhe soufflé de perdiz, uma garrafa vinho. Chateau Latour 82 -e não 80- com um empinar de nariz. Jantam, enquanto ele projecta dos olhos um filme iraniano na parede do loft. E depois, com um estalar de língua, ele abre a porta do quarto para que ela rodopie, salte, pare e gema lenta ao comando cardíaco do seu ponteiro.
anita