sábado, 8 de março de 2008

"Aproveitem"!

Manhã tardia de meio dia e eles mordiam à mesa memórias passadas. Ela, com factos à mão, encostava-o subtilmente contra as cordas. Ora, a verdade sempre pede para ver a luz do dia e deixar a solitária. Ele, de mãos, ora na mesa, ora nas pernas, desviava o olhar para fixar o pensamento, arranjando palavras para se coser. O confronto de ideias estava saboroso. Entretanto, o café foi ficando cheio. Colado a eles, um homem na nobreza dos setenta meteu conversa. A conversa fechou-se e foram respondendo, seduzidos pelo descontexto e sabedoria do que ele dizia. Falou de telemóveis, dos netos e da vida. A conta aparece, aleluia. Ele, puxando da mescla de papéis do bolso, deixa mostrar um pacote de pastilhas de canela. O homem da nobreza doce dos setenta rejubila Ah o que eu estou aí a ver! Ela e ele engasgam-se um pouco. Alface nos dentes? Uma alsa de soutien reinadia? Não. Canela! Afrodisíaco! Seus malandros! Ela tenta suavizar -o café todo já assiste de pé e bilhete na mão - Ah, mas nós somos só amigos... pois.. O homem de setenta nobres e vividos anos não desiste. Aproveitem! Isto passa tudo depressa, aproveitem! Eu já tenho 80 anos, já tive a minha conta, agora vocês.. aproveitem! E perante tal encosto às cordas, ele e ela pediram a conta, sentindo-se simultaneamente estúpidos e iluminados. Ela apertou-lhe a mão macia com reverência, como se a um antepassado longínquo. Felicidades para si! De repente, a vida surgia-lhe simples, desvelada. Como lhe agradecer a oferenda?
Há conversas de café que merecem um altar.

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