Poema dum Funcionário Cansado (comentado)
A noite trocou-me os sonhos e as mãos [aliás, trocou-me toda]
dispersou-me os amigos [não sei como me aturam]
tenho o coração confundido e a rua é estreita [sobretudo quando vou para casa, arrasto-me]
estreita em cada passo
as casas engolem-nos [ó se engolem]
sumimo-nos [era o que queria]
estou num quarto só num quarto só [ainda por cima sem mobília]
com os sonhos trocados [eu sonho é de mais]
com toda a vida às avessas a arder num quarto só [alguém já sentiu o mesmo!]
Sou um funcionário apagado [mais uma na máquina, admito]
um funcionário triste [triste não, talvez pouco contente]
a minha alma não acompanha a minha mão [acompanha, daí ter tanto trabalho]
Débito e Crédito Débito e Crédito [empréstimo, conta ordenado, cartão de crédito, 20 euros no bolso]
a minha alma não dança com os números [ela não queria, mas teve de se habituar]
tento escondê-la envergonhado
o chefe apanhou-me com o olho lírico na gaiola do quintal em frente [nem tempo tenho de me pentear]
e debitou-me na minha conta de empregado
Sou um funcionário cansado dum dia exemplar [às vezes sou]
Por que não me sinto orgulhoso de ter cumprido o meu dever? [porque a vida não é só isto]
Por que me sinto irremediavelmente perdido no meu cansaço [porque 'tou com o cérebro de um pequeno molusco]
Soletro velhas palavras generosas [despacha-te, dá-me essa treta, é para ontem, envia já minha abécula]
Flor rapariga amigo menino [é o que vai no coração]
irmão beijo namorada mãe estrela música [no coração]
São as palavras cruzadas do meu sonho [faço-as para não sonhar e dormir apenas]
palavras soterradas na prisão da minha vida [desisti de soterrar seja o que for]
isto todas as noites do mundo numa só noite comprida [a noite é sempre curta para tudo]
num quarto só [nem sempre, às vezes tenho visitas]
António Ramos Rosa
Comentários de anita
quinta-feira, 10 de abril de 2008
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