sábado, 19 de abril de 2008
Esperança (com banda sonora)
Ela seguia resoluta pela rua enquanto esmagava pensamentos com os lábios. Decisões na manhã cinzenta de março, um lugar para onde ir, um abrigo onde desaguar ventanias.
Não chega e basta, pensou. Luar de terça-feira, lua cheia a balouçar nos vidros da porta de entrada.
Passam horas e dias e tempo que baste. Ela continua resoluta na luta, jogando puzzles na mente confusa. Prende-se na sua respiração - na dele, maçã de adão, peito, maçã de adão- qual cientista à espera de uma explosão prometida, um incentivo que traga êxtase igual ao da descoberta do átomo. Em vão.
Lua minguante, tu, aquele que paira lá no alto como um astro-rei, trazes-me a noite e o silêncio distante. Esmagas os meus dedos nas tuas portas fechadas com o vigor de um soldado vencido de um jogo de vídeo. Porque ficcionas fantasmas? Porque insultas esta luz com desejos efémeros?
E imagina, uma vez mais, o momento do desvelo, ansiado. Ele, finalmente, a estrafegar os seus demónios na banheira, a crescer-se o homem da sua idade, de repente dos 16 anos aos outros tantos num segundo. Num segundo, um homem livre de si mesmo.
Porque te recusas a sair de ti para a vida? Para esta vida que acontece neste minuto enquanto penso o que te digo e engoles a solidão como refeição sadia –esperas por outra vida que não sabes se virá. Porque tens medo de reconhecer o medo? Que temes?
E ele, demasiado perto de si mesmo, toureia-a e à sua mão aberta, essa mão íntima é uma oferta de bordel - palma para cima, sem medo. Que medo. A maioria das vezes, atira-lhe palavras-formigas à pressa pelas linhas do telefone, não venha pergunta incómoda, não se lhe parta o querido gelo, não se lhe quebre o código de soldado. Intoxicado pela beleza do futuro que ainda não existe –só na sua mente acúçar-cristalizado - acabará sozinho, na companhia de palavras formigas-medrosas saindo da televisão do dia.
E ela decide Chega, tenho os dedos em sangue das tuas portas fechadas e quero ser livre.
anita
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