quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Seja


Não tenho números, mas aposto que se semicerramos os olhos e escolhermos um jornal, revista, site, panfleto, ao acaso, vamos sempre, mas sempre, encontrar um artigo com as palavras vida, equilíbrio, bem-estar, harmonia... É assunto da ordem do dia tanto quanto as cotações da bolsa, o tempo, a política, o divórcio da madonna. Está sempre, sempre lá. Todos os dias - bem, quase todos os dias - me passam para a mão um folheto anunciando uma qualquer clínica de bem-estar ou spa, centro de cura espiritual especializado em todos os males ou simples ginásio à medida-da-sua-preguiça. Tudo e todos cantam aos ventos para que olhemos mais por nós, nos equilibremos, comamos melhor, durmamos mais, nos harmonizemos connosco e com os outros, façamos melhor e mais bizarro amor, sorriamos às criancinhas, aos taxistas que nos tratam mal, aos velhinhos que nos dão encontrões nas filas de espera, cheiremos as flores e o fumo dos carros com um sorriso nos lábios, sejamos verdadeiros picassos na cozinha, mais refinados a vestir, mais sofisticados no trato, mais caridosos e solidários, mais honestos, mais cultos... E que nos amemos superiormente mesmo quando lixamos alguém à grande. E, no fim de contas, fica esta fotografia: isto cansa. Tanta conversa cansa porque embora reflectindo uma preocupação genuína, um anseio verdadeiro, quantas pessoas pensarão sobre o que quer realmente dizer para si próprios bem-estar, harmonia, vida plena? Quantos têm realmente tempo para se pensarem no meio do lusco-fusco?

1 comentário:

Joana Hartmann disse...

True, true...
Seria hipocrisia, caso houvesse sinais de auto-consciência e de escolha. Mas às reacções automatizadas e aos sentimentos de pacotilha chamam-se o quê, actualmente? Normalidade?...