
Ouves esta música?
diz-lhe ela, à janela, enquanto ele come esparguete à bolonhesa, com queijo ralado.
Ouves?
Não ouço nada, só te oiço a ti, blá blá blá,
diz-lhe ele, enquanto coça o peito, ao centro, por entre caracóis,
‘tou morto de cansado, deixa-me comer.
E ela debruça-se ainda mais na janela, a orelha a deslizar pelo vidro aberto, a correr para o som, a fugir para o alcatrão lá em baixo, atravessando a rua, entrando no armazém do outro lado. Desaparecendo.
E ela abre o armário, vestido preto com rosas vermelhas estampadas e um decote especialmente cosido para visitar os pais dele. Sacode-o com força na vertical, em jeito de um bacalhau graúdo, rebenta os pontos do peito e veste-o. Limpa os sapatos de salto do pó dos dias.
Fecha-me o fecho, atira-lhe ela, na sala.
Ele, de almôndega na bochecha, baba-se, pergunta,
mas vais sair?
não, vesti-me assim para me deitar…
E ele aperta-lhe o fecho, dá-lhe uma palmada no rabo e senta-se.
Já te disse que não gosto disso, que me batas, mesmo que seja a brincar.
‘Tá bem… mas vais dançar, é?
Vou. E depois? Queres vir?
Mais uma almôndega.
Ná, ‘tou cansado. Mas tu não suportas que te toquem… 'tou a estranhar.
Coça de novo o peito, ajeita o guardanapo e os testículos.
Pois não.
E ela já desce as escadas, os sapatos enterram-se na calçada, o cabelo vai sendo penteado, os brincos postos, os lábios avermelham-se em dentadinhas.
Na milonga, um candidato oferece-lhe a mão, ela duvida - suada, a mão -e agarra-lhe apenas a ponta do dedo.
Sim, vamos.
E ele, todo ele homem vulgar, saído de um qualquer escritório ou banco ou loja, arremessa-lhe a mão à cintura. Ela encolhe a barriga e desvia o nariz do dele, dos olhos, encosta as pontas dos dedos aos lugares devidos e começam.
Ela suportaria, sim. Não tinha vindo para outra coisa senão para sentir o corpo vivo, dilacerado por toques repentinos, puxões em direcções contrárias, músculos retesados pela estética e pela regra, safanões próprios da condução do homem. Era a isto que vinha.
E pelas tábuas fora foram-se esbatendo na multidão, cada vez mais pulsando ao sabor daquela artéria a que chamam bandoneon e que liga os corpos alheios ao coração de quem o toca. Ela cerra os olhos, solta o cabelo curto enquanto vive o filme da libertação, dominada pelas pernas dele, fincadas em cada passo. Livre, assim conduzida, como se vendada. Com as pontas dos pés rasgam o solo e ondeam como lume fácil. Ela enrola-lhe a perna na cintura em cobra, ele entusiasma-se, assenta-lhe uma palmada no rabo. Ela arremessa-lhe um estalo, e, rindo, diz,
podes dar outra.
E continuam. Com as pontas dos pés rasgam o solo e ondeam como lume vivo por entre os pares da noite, filmes de outras vidas iguais.
diz-lhe ela, à janela, enquanto ele come esparguete à bolonhesa, com queijo ralado.
Ouves?
Não ouço nada, só te oiço a ti, blá blá blá,
diz-lhe ele, enquanto coça o peito, ao centro, por entre caracóis,
‘tou morto de cansado, deixa-me comer.
E ela debruça-se ainda mais na janela, a orelha a deslizar pelo vidro aberto, a correr para o som, a fugir para o alcatrão lá em baixo, atravessando a rua, entrando no armazém do outro lado. Desaparecendo.
E ela abre o armário, vestido preto com rosas vermelhas estampadas e um decote especialmente cosido para visitar os pais dele. Sacode-o com força na vertical, em jeito de um bacalhau graúdo, rebenta os pontos do peito e veste-o. Limpa os sapatos de salto do pó dos dias.
Fecha-me o fecho, atira-lhe ela, na sala.
Ele, de almôndega na bochecha, baba-se, pergunta,
mas vais sair?
não, vesti-me assim para me deitar…
E ele aperta-lhe o fecho, dá-lhe uma palmada no rabo e senta-se.
Já te disse que não gosto disso, que me batas, mesmo que seja a brincar.
‘Tá bem… mas vais dançar, é?
Vou. E depois? Queres vir?
Mais uma almôndega.
Ná, ‘tou cansado. Mas tu não suportas que te toquem… 'tou a estranhar.
Coça de novo o peito, ajeita o guardanapo e os testículos.
Pois não.
E ela já desce as escadas, os sapatos enterram-se na calçada, o cabelo vai sendo penteado, os brincos postos, os lábios avermelham-se em dentadinhas.
Na milonga, um candidato oferece-lhe a mão, ela duvida - suada, a mão -e agarra-lhe apenas a ponta do dedo.
Sim, vamos.
E ele, todo ele homem vulgar, saído de um qualquer escritório ou banco ou loja, arremessa-lhe a mão à cintura. Ela encolhe a barriga e desvia o nariz do dele, dos olhos, encosta as pontas dos dedos aos lugares devidos e começam.
Ela suportaria, sim. Não tinha vindo para outra coisa senão para sentir o corpo vivo, dilacerado por toques repentinos, puxões em direcções contrárias, músculos retesados pela estética e pela regra, safanões próprios da condução do homem. Era a isto que vinha.
E pelas tábuas fora foram-se esbatendo na multidão, cada vez mais pulsando ao sabor daquela artéria a que chamam bandoneon e que liga os corpos alheios ao coração de quem o toca. Ela cerra os olhos, solta o cabelo curto enquanto vive o filme da libertação, dominada pelas pernas dele, fincadas em cada passo. Livre, assim conduzida, como se vendada. Com as pontas dos pés rasgam o solo e ondeam como lume fácil. Ela enrola-lhe a perna na cintura em cobra, ele entusiasma-se, assenta-lhe uma palmada no rabo. Ela arremessa-lhe um estalo, e, rindo, diz,
podes dar outra.
E continuam. Com as pontas dos pés rasgam o solo e ondeam como lume vivo por entre os pares da noite, filmes de outras vidas iguais.
anita

2 comentários:
Gosto de te ler. Intensa, precisa.
Descreves bem a verdade do impulso para a libertação através da entrega.Bjo*
"E ondeam como lume vivo por entre os pares da noite"
Concordo inteiramente com o primeiro comentário. A simplicidade trabalhada da tua escrita é mesmo muito apetecível. Força
FS
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