terça-feira, 13 de maio de 2008

Funiculì, funiculà




Duas mulheres descem a rua apressadas, uma tem as meias de rede rotas numa rodela vistosa atrás na perna, a outra segura a malinha debaixo do braço, dedos esticados de verniz fresco. Os saltos crepitam na pedra da avenida, pelas montras em rapidez ondulada. Uma pára, ajeita o cabelo. A outra nota-lhe o buraco na meia. Não faz mal. Ele gosta assim. A outra revira os ombros, serpenteia os olhos. Não tem ninguém à espera. Nem meias leva. Decide não lhe falar no baton a mais nos cantos dos lábios. E a outra ajeita o vestido, sente o suor escorrer-lhe pelo meio do peito de março posto e encarna-se ainda mais diva italiana, a saia justa a ritmar-lhe os flancos. Atrás delas correm dois cães lustrosos de línguas húmidas. O mais novo fareja o buraco da meia, o outro mal consegue ver. E elas apressam-se ainda mais, mais rápido ainda e contornam exímias a esquina. O adro já está deserto. O cão mais novo ganha a corrida e em flecha rasga um bocado da meia de buraco na perna. Ela assusta-se e grita. A outra enxota-o e suspira. Até os cães! E estacam no degrau, limpam o suor do buço e empurram a porta. Vais entrar nessa figura? sussurra-lhe a outra. Ele gosta assim. E ajoelha-se.

anita

1 comentário:

Bluesy disse...

Cães lustrosos? :D Isto fez-me lembrar outra coisa que viste na capa de uma revista... remember?