terça-feira, 1 de julho de 2008

Na madrugada, um rio em forma de carta

























"Tu és a terra...

Tu és a terra em que pouso.
Macia, suave, terna, e dura o quanto baste
a que teus braços como tuas pernas
tenham de amor a força que me abraça

És também pedra qual a terra às vezes
contra que nas arestas me lacero e firo,
mas de musgo coberta refrescando
as próprias chagas de existir contigo.

E sombra de árvores, e flores e frutos,
rendidos a meu gosto e meu sabor.
E uma água cristalina e murmurante
que me segreda só de amor no mundo.

És a terra em que pouso. Não paisagem,
não Madre-Terra nem raptada ninfa
de bosques e montanhas. Terra humana
em que me pouso inteiro e para sempre."

Jorge de Sena


(foto: Ângela Ferreira)


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