terça-feira, 10 de junho de 2008

Breu

Ouvíamo-la quando perdemos o caminho. Ali no concreto da estrada breu as estrelas eram elas mesmas, como a ausência de luz era ela mesma apenas negro. Isso apenas.
Mapas, azimutes, teias de estradas e o cérebro pulsando do alto do conhecimento acumulado. Lamentámos a bússola deitada fora, uma semana antes, numa farsa de velhos exploradores da vastidão, batedores experimentados do desconhecido. De hipóteses românticas acerca da estrada a tomar fomo-nos mentindo de conforto. Estávamos à deriva.
O meu corpo afinou os sentidos como uma velha máquina que regressa à glória efémera do activo e eu estranhei-lhe o palpitar atento. O aguçar dos olhos arqueando as abas do nariz em direcção ao vento. Romance da selva.
Hoje, pelo menos 100 anos depois, não sabíamos caminhar no escuro.Trazíamo-nos perdidos, andando pelo meio de árvores indistintas, acelerando os corpos. Longe da poesia, o céu é apenas ele mesmo, indecifrável. Rodeados pelo mastigar constante dos pássaros do escuro soubemo-nos presas, não predadores.
anita

3 comentários:

Anónimo disse...

A (falta de) bússola, a escuridão, a estrada, o acelerar dos corpos, que belo e curiosamente familiar...

Anónimo disse...

"De hipóteses românticas acerca da estrada a tomar fomo-nos mentindo de conforto."
Que frase m... Acho que seria capaz de passar horas e lê-la e relê-la...
Muito boa!
Keep goin'
M.

Miguel disse...

Para quando estas pérolas ao dispor de quantos, a deliciá-los, a mantê-los cativos da sua dança encantada? Eu acho-as merecedoras e comigo o mundo.