quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

Escrevias pela noite fora

Escrevias pela noite fora. Olhava-te, olhava o que ia ficando nas pausas entre cada sorriso. Por ti mudei a razão das coisas, faz de conta que não sei as coisas que não queres que saiba, acabei por te pensar com crianças à volta. Agora há prédios onde havia laranjeiras e romãs no chão e as palavras nem o sabem dizer, apenas apontam a rua que foi comum, o quarto estreito. Um livro é suficiente neste passeio. Quando não escreves estás a ler e ao lado das árvores o silêncio é maior. Decerto te digo o que penso baixando a cabeça e tu respondes sempre com a cabeça inclinada e o fumo suspenso no ar. As verdades nunca se disseram. Queria prender-te, tornar a perder-te, achar-te assim por acaso no meu dia livre a meio da semana. Mantêm-se as causas iguais das pequenas alegrias, longe da alegria, a rotina dos sorrisos vem de nenhum vício. Este abandono custa. Porque estou contigo e me deixas a tua imagem passar pelas noites sem sono, está aqui a cadeira em que te sentaste a escrever lendo. Pudesse eu propor-te vida menos igual, outras iguais obrigações. Havias de rir, sair à rua, comprar o jornal.

Hélder Moura Pereira


Poema em prosa. Que me perdoe o autor, mas sonho com este poema sempre em prosa sempre fluído líquido como no meu pensamento. Acho que tenho coragem para dizer que é um dos meus poemas favoritos -talvez "o"- porque lhe imagino sempre as personagens; porque me apela como um resumo de Vida, um descrever saboroso da luta contra a rotina humana e o desejo intenso de libertação e encontro com o Amor absoluto. Talvez um pequeno argumento para um pequeno filme de todos nós.

Não sei se me consigo fazer compreender...

Estou de volta.




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